Dr Eduardo Iunes

Pesquisa: Mochilas pesadas e as dores nas costas das crianças

Não é incomum observarmos crianças e adolescentes carregando mochilas escolares que excedem em até 10-15 % o seu peso corporal, fato que os coloca em risco de dor nas costas e outros distúrbios relacionados. A ameaça representada pelo peso extra é ainda maior pelo fato de que a maioria dos adolescentes não faz exercícios físicos com frequência.

As informações são de um estudo publicado no Archives of Disease in Childhood.Para chegar a tal conclusão os pesquisadores espanhóis avaliaram o peso das mochilas e a saúde da coluna de 1.403 alunos com idades entre 12 e 17 anos, em 11 escolas de uma província do noroeste da Espanha.

Os pesquisadores também coletaram informações sobre a altura dos alunos, níveis de exercícios físicos e problemas de saúde subjacentes.O peso médio das mochilas dos estudantes foi de quase 7 kg. Mais de 60% estavam carregando mochilas com peso superior a 10% do seu peso corporal, e um em cada cinco carregava uma mochila que pesava mais de 15% do seu próprio peso.Não surpreendentemente, um em cada quatro alunos disse ter sofrido com dores nas costas por mais de 15 dias durante o ano anterior. A escoliose foi responsável por 70% dessas dores. Os outros 30% foram atribuídos a dores lombares ou contraturas, contrações musculares involuntárias contínuas.

As meninas apresentaram um maior risco de dor nas costas do que os meninos. E este risco aumentou com a idade, presumivelmente, devido aos anos carregando mochilas pesadas.A dor nas costas aparece quando a mochila puxa os jovens para trás, levando-os a dobrar a coluna e fazer um arco com as costas. Esta posição pode comprimir a coluna vertebral, com as vértebras pressionando os discos entre elas.Se a criança ou o adolescente tem de se inclinar para frente ao caminhar com uma mochila pesada, ela realmente está muito pesada. No mínimo, o que pode resultar deste hábito é uma má postura constante e ombros cronicamente arredondados. E se esse jovem tem que levantar a cabeça para ver onde está indo, pode terminar com dores crônicas no pescoço e nervos comprimidos.

Danos precoces à coluna

Médicos e professores precisam educar pais e crianças sobre os riscos de levar mochilas pesadas para a escola todos os dias. Mochilas pesadas não só minam a energia dos jovens, que poderia ser melhor utilizada fazendo trabalhos escolares ou praticando esportes, como também podem levá-los a dores crônicas nas costas, acidentes e danos ortopédicos ao longo da vida”, afirma o neurocirurgião Eduardo Iunes, especialista em coluna.Segundo o médico, dentre os riscos possíveis, além da escoliose, detectada em 70% dos casos da pesquisa espanhola, estão fraturas por estresse nas costas, inflamação da cartilagem de crescimento, tensão no pescoço e nas costas e danos nos nervos do pescoço e ombros.

A Consumer Product Safety Commission (espécie de Procon americano) estima que carregar uma mochila de 12 quilos para a escola e levantá-la 10 vezes por dia, durante um ano letivo inteiro, coloca uma carga acumulada no corpo dos jovens equivalente a seis carros de médio porte.“Esta questão tem sido levantada em países de todo o mundo há mais de uma década. Em dezembro de 1999, médicos em Milão relataram na revista The Lancet que 34,8% dos alunos italianos transportavam mais de 30% do seu peso corporal, pelo menos uma vez por semana, excedendo os limites propostos até mesmo para adultos. A carga transportada por essas crianças era equivalente a de um homem com 176 quilos transportando uma mochila de 39 quilos todos os dias”, observa o especialista em coluna.

Escoliose em crianças e adolescentes

A escoliose em pacientes entre 10 e 18 anos de idade é denominada escoliose adolescente. De longe, o tipo mais comum de escoliose é aquela em que a sua causa é desconhecida. É chamada de idiopática ou escoliose idiopática do adolescente (EIA)”, diz o médico. A escoliose idiopática do adolescente geralmente não resulta em dor ou sintomas neurológicos. A curvatura da coluna não faz pressão sobre os órgãos, incluindo o pulmão ou coração. Sintomas como falta de ar não são vistos nos casos de EIA.“Quando a escoliose começa na adolescência, muitas vezes, os pacientes têm dor nas costas, geralmente na área lombar. A lombalgia não é incomum na adolescência em geral. Muitos adolescentes experimentam dor nas costas devido à participação em um grande número de atividades, sem ter um bom núcleo de resistência abdominal e nas costas, bem como flexibilidade dos isquiotibiais. A escoliose idiopática do adolescente geralmente não resulta em dor ou problemas neurológicos”, explica Iunes.

O tratamento da escoliose idiopática do adolescente se divide em três categorias principais: observação, órtese e cirurgia. “O tratamento recomendado é baseado no risco de progressão da curvatura. Em geral, as curvas da EIA progridem mais durante o período de crescimento do paciente. Enquanto a maioria das curvas retarda sua progressão significativamente no momento da maturidade esquelética, algumas, especialmente as curvas superiores a 60º, continuam a progredir durante a idade adulta”, afirma o neurocirurgião.

Reduzindo a carga

Em plena era digital, quando pelo menos alguns trabalhos escolares poderiam ser feitos online, não houve aparentemente diminuição do peso das mochilas carregadas pelas crianças todos os dias. “Neste sentido, sugiro que pais e professores comecem a orientar crianças e adolescentes e a sugerir itens que podem ser deixados em casa ou na escola”, recomenda Eduardo Iunes.

Também é útil escolher uma mochila bem concebida e ajustada corretamente nas costas. “Opte por uma mochila que não seja maior do que o absolutamente necessário, pois se houver espaço sobrando, certamente a criança levará peso além do necessário. A mochila ideal deve ter alças largas, acolchoadas, ajustáveis nos ombros (as estreitas podem causar danos nos nervos), um acolchoado na parte de trás e compartimentos no interior para que os itens mais pesados possam descansar contra as costas da criança. É preciso ajustar as alças de modo que a parte inferior da mochila, quando cheia, não fique a menos de quatro centímetros abaixo da cintura. As crianças devem ser advertidas a nunca levar a mochila num só ombro”, informa o médico.

Fonte: Runner’s World